sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Igreja reformada sempre se reformando / Reformed church always reforming / Iglesia reformada siempre reformando

Uma das máximas que a Reforma Protestante produziu é a que diz: “Igreja reformada, sempre reformando”. A ideia que essa frase traz em si é um desafio para a igreja cristã de hoje. Uma igreja reformada não tem a ver com uma inovação nem mesmo uma reafirmação de valores antigos com novas roupagens. Assim como uma igreja que está sempre se reformando não corresponde a introduzir práticas, ritos e costumes novos em sua liturgia e ação.
Embora esteja alicerçada no espírito dos reformadores, a frase não esteve na boca nem na pena de Lutero, Zwinglio ou Calvino, mas dos representantes do que podemos chamar de “segunda reforma”, principalmente da vertente ligada ao pietismo. Sua origem remonta a uma frase atribuída a Santo Agostinho: “A igreja está sempre sendo reformada” que em latim é: Ecclesia semper reformanda est. Lutero era um monge agostiniano e muito provavelmente foi influenciado por essa ideia.
A frase só vai aparecer no contexto da Reforma através Jodocus von Lodestein (1620-1677), uma proeminente figura do pietismo reformado alemão, que achava que a igreja não deveria ser chamada de reformada, mas de “reformanda”. Para ele, a Reforma havia afetado a igreja, mas a vida das pessoas precisava sempre também ser reformada. Outros entendem que ela foi citada por Gisbertus Voetius (1589-1676) por ocasião o sínodo de Dort (1618-1691), na Holanda, com a forma: Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est. Esse lema foi expandido para Ecclesia reformata semper reformanda est secundum verbum Dei. Ou seja: Uma igreja reformada sempre sendo reformada segundo a palavra de Deus.
Richard Baxter (1615-1691), um puritano inglês, chegou a indagar: “Como podemos achar que a Reforma está terminada quando nos livramos de algumas cerimônias e mudamos alguns trajes, gestos e formas? Não, Senhores! Converter e salvar almas é a nossa real atividade. Essa é a principal parte da Reforma”, conforme citado por Michel Reeves, em A chama inextinguível.
Mais tarde, Karl Barth (1886-1968) a reafirmou em seu tratado de teologia dogmática, argumentando que os limites da reforma da igreja se encontram dentro da própria dinâmica da vida comunitária, na maneira como Cristo toma forma como Senhor da igreja, construindo não só a maneira como ela se constitui internamente, mas também como ela se expande e alcança o mundo. Nessa construção, ela precisa compreender os limites de ser uma igreja reformada e as implicações de uma igreja sempre em reforma. As possibilidades e as necessidades de mudança da igreja devem abranger suas regras, suas estruturas e até suas concepções doutrinais à luz daquilo que foi ligado ao longo do desenvolvimento histórico da fé cristã.
A frase também está implícita nos documentos do Concílio Vaticano II, que reconheceu a necessidade de uma igreja sempre em reforma, ao afirmar, no documento Lumen Gentium, que “a Igreja, contendo pecadores no seu próprio seio, simultaneamente santa e sempre necessitada de purificação, exercita continuamente a penitência e a renovação”.
Como se pode notar, esse lema da reforma contempla tanto o mais piedoso conservador, como também o mais radical revolucionário. O que se pretende não é preservar valores e princípios somente por causa da tradição, nem mesmo mudar apenas pela mudança. Ele tem uma dimensão ecumênica e lança uma proposta de reflexão a respeito da maneira como a igreja realiza sua missão historicamente.
Nesse sentido, o lema precisa ser revisto à luz do próprio sentido de missão da igreja. Não se trata de mudar a igreja apenas ao sabor das transformações da cultura e do conhecimento, mas de rever os valores e princípios de origem para tornar a mensagem mais compreensível às pessoas em seu tempo, mas também para se viver de uma forma mais coerente a fé e a graça salvadora para aqueles que nos são contemporâneos.
O próprio lema pode nos levar a compreender de maneira equivocada que a igreja pode ser agente autônoma da sua própria reforma. Não se pode esquecer que a igreja é campo de trabalho de Deus. A ideia não é de uma igreja que se reforma, mas que vem sendo reformada pelo Espírito Santo. Isso desperta a necessidade de refletir sobre a sua própria identidade, mas também a sua relevância: a igreja existe para cumprir a Missio Dei no mundo.
Quando a reforma para, a igreja se deforma. E quando a igreja se deforma, ela se conforma. A igreja sempre sendo reformada pelo Espírito à luz da palavra de Deus para cumprir sua missão no mundo, essa é a transformação radical que necessária em nossos dias. Alguém certa vez orou: “Deus nos livre de um novo Lutero!” E hoje precisamos clamar por uma renovação na vida da igreja.

sábado, 14 de outubro de 2017

Sacerdócio universal dos crentes / Universal Priesthood of Believers / Sacerdocio universal de los creyentes

Mas vós sereis chamados sacerdotes do Senhor, e vos chamarão ministros de nosso Deus [...]” (Isaías 61.6).
O sacerdócio universal de todos os crentes é um dos mais caros princípios da Reforma Protestante. É uma espécie de confrontação com a divisão que o cristianismo ocidental havia construído na Idade Média de separação entre clérigos e leigos no interior da igreja.
Esse princípio se baseia na descoberta de que a Bíblia apresenta Jesus como o grande sacerdote, o único mediador entre Deus e os homens. E a mesma Bíblia também diz que todos aqueles que seguem a Jesus em fé e praticam seus ensinos partilham do seu sacerdócio. A Bíblia diz: Mas vós sois [...] o sacerdócio real (1 Pedro 2.9) e e nos fez reino, sacerdotes para Deus(Apocalipse 1.6).
O Novo Testamento não fala de uma ordem sacerdotal para a igreja. Ela ficou restrita ao templo judaico. O clericalismo é um dos maiores equívocos desenvolvidos pela cristandade. Foi Tertuliano, no final do século II, que se referiu aos líderes da igreja pela primeira vez como “sacerdotes”. Eram eles que tinham o dever de ofício de ministrar a eucaristia como um sacrifício.
Ao analisar as implicações da justificação pela fé e a graça salvadora, Lutero aprofundou sua compreensão de que a salvação não é um mérito humano, mas um dom divino a todo aquele que acolhe a obra de Cristo consumada na cruz. Essa graça é libertadora de todo pecado, do medo da morte e da condenação eterna, como também expressa a justiça divina sobre toda a criação. Isso confere uma condição de plena liberdade ao que crê.
Numa obra de 1520, intitulada A liberdade do cristão, Lutero afirmou que “somos sacerdotes; isto é muito mais que ser reis, porque o sacerdócio nos torna dignos de aparecer diante de Deus e rogar pelos outros”. E disse mais: “Tu perguntas: ‘Que diferença haveria entre os sacerdotes e os leigos na cristandade, se todos são sacerdotes?’ A resposta é: as palavras ‘sacerdote’, ‘cura’, ‘religioso’ e outras semelhantes foram injustamente retiradas do meio do povo comum, passando a ser usadas por um pequeno número de pessoas denominadas agora ‘clero.’ A Escritura Sagrada distingue apenas entre os doutos e os consagrados, chamando-os de ministros, servos e administradores, que devem pregar aos outros a Cristo, a fé e a liberdade cristã. Já que, embora sejamos todos igualmente sacerdotes, nem todos podem servir, administrar e pregar.”
Embora seja uma ideia revolucionária para o seu tempo (o século XVI), o princípio do sacerdócio universal traz em si algumas implicações que precisam ser levadas em consideração hoje. Alguns o veem como a base do individualismo evangélico e outros o consideram como uma expressão da ideia da autonomia do sujeito trazida pela racionalidade moderna, já presente no pensamento da Reforma Protestante. Mas há algo mais.
Primeiramente, o fato de que os cristãos em geral são sacerdotes se constitui em um privilégio, e não uma exclusividade. Por sermos sacerdotes, temos acesso a Deus com liberdade, mas isso não nos faz melhores ou piores do que as demais pessoas. Isso deve despertar em nós ma espiritualidade mais humanizadora.
Em segundo lugar, o sacerdócio universal tem uma dimensão comunitária. Não somos sacerdotes de nós mesmos. Somos sacerdotes uns dos outros. Ninguém pode ser cristão sozinho. Formamos a communio sanctorum – a comunhão dos santos. A Bíblia nos ensina que o Espírito Santo capacita a todos com dons a fim de que possam ministrar uns aos outros a graça recebida.
Em terceiro lugar, todos os crentes – inclusive pastores e ministros – são leigos. A palavra não se refere a uma pessoa indouta ou desconhecedora. Ela deriva do grego laós, que quer dizer povo. Somos todos participantes do povo de Deus. E, mais do que isso, acolhidos como filhos do mesmo pai. Isso não impede que haja liderança e liderados, apenas lembra que o papel do líder é servir aos demais.
Toda vez que algum líder religioso se arvora com uma autoridade sobre os demais seguidores da fé, o princípio do sacerdócio universal é vilipendiado. O Senhor não colocou na igreja uns com poderes superiores a outros, nem mesmo uns com autoridade sobre os demais. Antes, a vida de fé deve ser desfrutada de forma harmoniosa entre todos aqueles que comungam da mesma graça.

domingo, 8 de outubro de 2017

Sentidos da graça / Senses of grace / Sentidos de la gracia

Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (Tito 2.11). 
A palavra graça possui uma pluralidade de sentidos. Ela nos remete a um universo de significados que envolve toda a nossa compreensão da realidade que nos cerca, desde a maneira como nos relacionamos com o sagrado até nossas relações com o que menos gostamos.
A maneira como nós a empregamos na língua portuguesa vem do latim gratia, que nos remete a uma atitude de reconhecimento das qualidades do outro, que nos desperta gratidão e apreço. Mas ela também está presente na língua grega, como Charis, que eram as deusas mitológicas do banquete, do encanto, da sorte e da prosperidade. Eram dotadas de beleza e simbolizavam a harmonia e a alegria. Na literatura grega e na arte ocidental em geral, elas sempre foram representadas por três jovens que dançam nuas entre si.
A palavra também está presente no hebraico, tanto como chen quanto hesed. A primeira lembra o transbordamento da bondade divina apesar do pecado humano. Deus abomina o pecado, porém a sua bondade ainda é maior. A primeira vez que ela aparece na Bíblia é em Gênesis 6.8, traduzida muitas vezes como benevolência: A Noé, porém, o Senhor mostrou benevolência. Tem o sentido de curvar-se, o ato de alguém maior ser capaz de se aproximar de alguém menor. A segunda é traduzida costumeiramente como misericórdia, resultado de um sentimento de amor e de fidelidade de Deus para com sua criação.
No uso cotidiano, graça aparece em várias situações:
- como um favor: “por graça”;
- como um ato de bondade: “agiu com graça”;
- como simpatia: “caiu na graça, foi agradável”;
- como elegância: “cheia de graça”;
- como uma qualidade de vida: “estava em estado de graça”;
- como bom humor: “fazer graça”;
- como uma recompensa: “gratificar”;
- como gratidão: “deu graças”;
- como louvor: “rendeu graças”;
- como identidade: “qual é sua graça”;
- como descoberta: “deu o ar da graça”;
- como expressão de poder: “dispensou sua graça”;
- como perdão: “recebeu o indulto”.
Em Filosofia, Agostinho afirma que a graça é o meio pelo qual podemos exercer a nossa liberdade para a escolha do bem. Para ele, o homem não pode conhecer nada sem o auxílio da graça divina. Tomás de Aquino, que escreveu um tratado sobre a graça, disse que ela consiste em um motor para alma, como um princípio para as ações de bondade, que se expressa como uma participação na natureza divina. A graça também foi entendida como uma espécie de beleza, uma concepção estética da relação entre liberdade e necessidade. Friedrich Schiller, no final do século XVIII, a chamou de beleza em movimento, pois é resultante da liberdade. Ela deixa transparecer o caráter moral do homem.
Na Bíblia, a graça é um dom e promove dons. Ela tanto é um presente que Deus nos concede como é também uma capacitação para que possamos partilhar uns com os outros seu amor, bondade e misericórdia. A graça se realiza entre nós como charismata, mais conhecida como dons espirituais. Pedro aconselha a que administremos a graça em seus aspectos multiformes: Cada um exerça o dom que recebeu para servir aos outros, administrando fielmente a graça de Deus em suas múltiplas formas” (1 Pedro 4.10). A expressão “múltiplas formas” se refere ao universo de cores que existe na natureza. A ideia é de que há uma variedade de possibilidades de agirmos com graça e por graça uns com os outros. Isso nos lembra que Deus ama a diversidade.
Na Teologia, a graça está relacionada à ação divina, ao modo como Deus se manifesta na história e age para poder atrair para si a humanidade perdida. A maior expressão da graça é a revelação de Deus em Cristo. A maneira como Jesus veio ao mundo, viveu, ensinou, se relacionou com pessoas, morreu, foi ressuscitado e recebido na glória é o discurso mais eloquente da graça divina. Para ter acesso à graça divina, nenhuma de nossas obras  sejam elas caridosas ou religiosas – é suficiente. Temos acesso a ela somente pela fé. Essa graça divina é salvadora porque restaura o homem de sua própria perdição. Ela é também libertadora, porque livra o homem da ilusão de ter todo o poder para dar conta de si.
Pensando nisso, Paulo disse certa vez: Mas, pela graça de Deus, sou o que sou, e sua graça para comigo não foi em vão; antes, trabalhei mais do que todos eles; contudo, não eu, mas a graça de Deus comigo” (1 Coríntios 15.10).

domingo, 1 de outubro de 2017

O legado da Reforma Protestante para hoje / The Legacy of the Protestant Reform for Today / El legado de la Reforma Protestante para hoy

A Reforma Protestante foi um movimento de renovação da igreja cristã que aconteceu no século XVI. A data do marco histórico é 31 de outubro de 1517, ocasião em que o frade agostiniano Martinho Lutero afixou suas 95 teses na porta da capela do castelo de Wittemberg, na Alemanha.
A igreja no Ocidente já vinha enfrentando problemas internos desde o século XIII, com cismas políticos, corrupção do clero e a implantação da Inquisição para conter os dissidentes. Entretanto, as causas da Reforma vão além das crises internas, abrangendo as esferas política e econômica. A Europa experimentava o surgimento dos Estados Nacionais e o fortalecimento do poder monárquico, bem como um novo regime econômico ganha força, que lançavam as bases do capitalismo.
O termo protestante surgiu com um sentido mais pejorativo, para designar a atitude dos governantes que apoiavam o movimento de Lutero. Eles lançaram um protesto de maneira formal a respeito de um edital de Roma, em 1529, que proibia o ensino das ideias reformistas luteranas nas localidades do Sacro Império Romano-Germânico. O protestantismo foi largamente difundido na Alemanha, mas também na Suécia, Dinamarca, Noruega e Islândia.
Podemos falar de uma diversidade de movimentos que envolveram a Reforma Protestante. Além do luteranismo, houve outro reformador que influenciou o protestantismo na Suiça e no sul da Alemanha: Ulrico Zwinglio. Seu movimento é conhecido como “Segunda Reforma”. Houve também o que chamamos de “Reforma Radical”, ou “Terceira Reforma”, marcada pela atuação dos grupos anabatistas. Houve também a atuação de João Calvino, que, a partir de Genebra, influenciou o protestantismo com uma teologia mais consistente. Houve ainda a Reforma na Inglaterra, que desencadeou novos movimentos, como o anglicanismo e os grupos separatistas, resultando em algumas denominações históricas como conhecemos hoje: o presbiterianismo, o metodismo, o congregacionalismo e as igrejas batistas.
Os problemas que motivaram a Reforma Protestante são diferentes dos que orientam o protestantismo de hoje. As preocupações que envolviam as pessoas no século XVI estavam voltadas para critérios de certeza. Elas estavam preocupadas com a busca da verdade, do absoluto e da eternidade. As discussões giravam em torno de temas como provas da existência de Deus, relação entre fé e razão e a existência do céu e do inferno. De fato, os protestantes não queriam inovar, mas restaurar valores e conhecimentos do cristianismo primitivo.
O ponto de partida foi a rejeição à prática da venda de indulgências, com a consequente defesa da justificação pela fé. Nesse esforço de reformar a igreja, eles enfatizavam a soberania da graça, o valor da fé, a autoridade das Escrituras, o senhorio de Jesus Cristo e o propósito de se fazer tudo para o louvor e a glória de Deus. Daí os cinco princípios protestantes expressos em latim: Sola Fide, Sola Gratia, Sola Scriptura, Solus Christus e Soli Deo Gloria (que corresponde a somente pela fé, somente pela graça, somete através da Escritura, somente por Cristo e somente para a glória de Deus.
O que esses princípios têm a ver com a expressão de fé dos grupos herdeiros da Reforma Protestante hoje? É possível orientar a vida pelos mesmos princípios hoje? Embora tenham acontecido grandes transformações sociais, políticas, econômicas e até tecnológicas, a preocupação com aspectos ligados à vida de fé e aquilo que consiste na essência do próprio cristianismo continua sendo uma necessidade.
Nossos compromissos com os valores cristãos, nossa experiência de conhecimento e de relacionamento, bem como nossos vínculos com a comunidade da fé continuam clamando por uma reforma ou atualização constante. Refletir sobre o que significa ser cristão hoje ou sobre como viver a fé cristã num contexto não cristã é uma demanda de nossos dias. O futuro do cristianismo passa por essa reflexão necessária.

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