domingo, 30 de abril de 2017

Quem é você sem suas máscaras / Who are you without your masks? / ¿Quién es usted sin sus máscaras?

Não somos como Moisés, que colocava um véu sobre a face para que os israelitas não contemplassem o resplendor que se desvanecia.” 2 Coríntios 3.13
Uma das histórias mais curiosas da Bíblia a respeito de identidade é a de Moisés, homem que esteve face a face com Deus e o entendia por sua essência. Certa vez, depois de ter passado por uma das mais impressionantes experiências de encontro com Deus, sentiu a necessidade de representar simbolicamente o que sentia. Ele havia reconhecido o quanto Deus ama e o quanto estamos distantes de sua graça, ele havia percebido o quanto estamos equivocados em relação ao que diz respeito às relações com Deus e o quanto ele nos acolhe e perdoa.
Seu rosto resplandecia cada vez que entrava na presença de Deus, a partir de então. Logo em seguida, descia para falar com o povo. Quando acabava de falar, cobria o rosto e só voltava a descobri-lo quando entrava de novo na presença de Deus. Na verdade, Moisés sentiu a necessidade de cobrir o seu rosto para que encobrisse a glória que estava sumindo. Este fato é relatado em Êxodo 34.29-35.

Essa atitude de Moisés tem a ver com a maneira como lidamos com nossas aparências. A tentativa de mostrar o que não somos tem a ver com o uso que fazemos de máscaras. As máscaras escondem a nossa identidade e interferem em nossa maneira de ser.
Nossas máscaras não são meros disfarces. Elas encobrem o desejo humano de recuperar a integridade perdida. Todos nós fazemos uso de máscaras, muitas delas, uma para cada ocasião, e as substituímos o tempo todo com uma habilidade tremenda. Nietzsche afirmou que “todo espírito profundo necessita de uma máscara.”
[...]
Conhecer sobre isso é importante demais pois nos ajuda a crescer pessoalmente. A completa maturidade só é alcançada pelo pleno desenvolvimento da personalidade.
Somos habilidosos em usar máscaras e a lidar com sombras. Sem as máscaras, não nos reconhecemos. Com relação às sombras, enganamos a nós mesmos. É um jogo em que, quando somos confrontados, passamos por uma experiência dolorosa. É uma grande desilusão descobrir que passamos a vida inteira à margem de nós mesmos.
Por causa dessa nossa habilidade, temos a tendência de nos autoenganar e até de sabotar a maneira de lidar com nossa própria vida. Nossa natureza comporta uma condição tal que permite que surjam sentimentos bons e ruins em relação a todas as situações vividas pelo simples fato de sermos humanos.
É nessa perspectiva que Deus nos chama a um mergulho no ser a fim de que vivenciemos uma fé sincera. O apóstolo Paulo disse certa vez a seus discípulo Timóteo: “O objetivo desta instrução é o amor que procede de um coração puro, de uma boa consciência e de uma fé sincera.” 1 Timóteo 1.5.
(Extraído do e-book Quem é você? Quando nossa identidade é colocada em jogo. Disponível na Amazon e neste blog)

sábado, 15 de abril de 2017

Sete palavras da cruz / Seven words from the cross / Siete palabras de la cruz

Nenhum púlpito, tribuna ou cátedra foi tão eloquente como a cruz. A crucificação de Jesus foi um espetáculo público que envolveu todo tipo de espectadores: familiares, seguidores, executores, curiosos e até inimigos e algozes. O horror da cruz falava por si só.
Ali na cruz, Jesus assumiu sobre si o mistério de Deus para resgatar a humanidade. Ele exerceu na cruz o papel de um mestre em sua cátedra ao proclamar sete breves frases carregadas de amor. Elas são as últimas palavras de alguém que teve uma vida expressiva, ocupado com a dor de gente como a gente.
A primeira, uma palavra de perdão. “Jesus disse: ‘Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo’. Então eles dividiram as roupas dele, tirando sortes” (Lucas 23.34). Ela fala que somos acolhidos por Deus, não importa o tamanho de nossos pecados.
A segunda, uma palavra de esperança. Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso’” (Lucas 23.43). Ela fala de que o melhor de Deus já está preparado para nós, mesmo que tudo pareça dar errado.
A terceira, uma palavra de compaixão. Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: ‘Aí está o seu filho’, e ao discípulo: ‘Aí está a sua mãe’. Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa” (João 19.26,27). Ela fala nada foge ao olhar misericordioso de Deus, até nossos sentimentos mais íntimos.
A quarta, uma palavra de revelação. “Por volta das três horas da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa: ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?’” (Mateus 27.46). Ela fala que Jesus é o messias divino, o abandonado de Deus, que se esvazia a si mesmo para se revelar tão próximo.
A quinta, uma palavra de humanidade. Mais tarde, sabendo então que tudo estava concluído, para que a Escritura se cumprisse, Jesus disse: ‘Tenho sede’” (João 19.28). Ela fala que Jesus era gente como a gente, com necessidades e possibilidades humanas, a fim de que sejamos gente como ele foi.
A sexta, uma palavra de missão. Tendo-o provado, Jesus disse: ‘Está consumado!’ Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito” (João 19.30). Ela fala que Deus está em missão, realizando a obra da redenção, que Jesus cumpriu de forma cabal ao assumir nossa humanidade até a morte na cruz.
A sétima, uma palavra de entrega. Jesus bradou em alta voz: ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’. Tendo dito isso, expirou” (Lucas 23.46). Ela fala que a morte não é o fim, mas nela está o começo de uma nova vida, que já pode ser experimentada aqui como nova criatura que renasce com a entrega por fé da vida inteira a Jesus.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Por que ainda sou evangélico? / Why am I still an evangelical? / ¿Por qué sigo siendo evangélico?

Sou cristão, ligado à vertente protestante, filiado a uma igreja batista. Como tal, fui instruído com base em uma teologia reformada em um seminário confessional mantido pela denominação batista mais tradicional. Isso me identifica como uma pessoa de confissão evangélica. Porém, essa afirmação não é suficiente para descrever a minha condição de religiosidade.
O que é ser evangélico? Essencialmente, deveria corresponder a uma pessoa que orienta sua vida, suas práticas, seu discurso, suas relações e suas esperanças pelo evangelho. A palavra “evangelho” vem do termo grego que corresponde a “boa notícia”, aquela que é alvissareira, que aponta um olhar para o futuro. O evangélico deveria ser, então, alguém que anuncia uma notícia boa para um mundo cansado de notícias desalentadoras, que declara que há saída para um mundo perdido.
Mais recentemente, o termo “evangélico” passou a designar um tipo de religioso, que faz parte de um segmento do cristianismo originário do movimento protestante. Sendo assim, faz referência a um contexto que comporta uma diversidade de formas e expressões. Quando se fala de evangélico, deve se ter em mente a pluralidade que isso comporta. Entretanto, nota-se o crescimento de uma tendência de se rotular de evangélico todo cristão adepto de igrejas que são marcadas por uma teologia simpática ao individualismo e ao consumismo, com uma moral conservadora e uma atitude fundamentalista.
Enquanto segmento religioso, os evangélicos não são todos iguais. Há evangélicos que são de esquerda e de direita, que lutam por direitos sociais e que defendem interesses do capital, que se importam com a causa do oprimido e que apoiam a bandeira da propriedade privada, que têm uma posição mais aberta para as questões de gênero e que são radicais e tradicionais nesse assunto, que buscam uma espiritualidade mais humanizadora e que professam a fé com base em uma teologia fundamentalista, que desenvolvem uma análise mais crítica das Escrituras e que afirmam a inerrância bíblica.
Além disso, as igrejas evangélicas se diversificam quanto as formas de organização, liderança e de culto. Daí a infinidade de denominações cristãs. E essa diversidade não é de forma alguma prejudicial. Cada igreja procura se estruturar para dar conta de suas necessidades e conflitos. Mesmo dentro de uma determinada denominação, há uma variação de condutas. Isso se dá pelo fato de que as denominações não são formas sagradas, divinas, reveladas, mas resultados de relações políticas em que estão em jogo interesses e exercício de poder.
Em tempo de maus exemplos e escândalos envolvendo bancada evangélica e lideranças evangélicas, é muito comum encontrar representações esquivando-se do uso desse termo. Ao longo dessa minha jornada evangélica, tenho visto pessoas que condenam essas atitudes, mas conservam um desejo pelo poder. Já vi pessoas que criticavam as estruturas denominacionais até terem uma oportunidade de exercer um cargo e já vi pessoas que ocupavam cargos, mas que passaram a criticar essas mesmas estruturas após serem destituídas ou demitidas. Enfim, essa atitude condenatória, embora tenha uma causa justificável, está mais para um certo ressentimento do que para uma análise crítica, que se faz necessária.
Continuo afirmando minha condição de evangélico. Não deixei de ser evangélico porque desejo ser anunciador de boas notícias, com a palavra e com a vida, para um mundo que está desorientado. E, como tal, reafirmo meus vínculos com o segmento protestante, com uma teologia reformada e com a igreja batista, que são expressões que remetem a essa condição. E o faço não porque julgue tais expressões como melhores ou mais perfeitas, mas que estão ligadas à minha história de vida.
Sou protestante porque rejeito as formas simbólicas com que a religiosidade ocidental se configurou. O meu protesto se direciona para a estrutura hierárquica da autoridade eclesiástica, para a centralização do poder da igreja, para a afirmação de uma teologia dogmática que não comporta o diálogo, para as formas engessadas de expressões litúrgicas.
Sou adepto da teologia reformada porque entendo que há uma depravação humana que tem uma causa originária, para a qual as Escrituras apontam a graça revelada na pessoa de Jesus Cristo como única esperança de salvação. É por meio da graça que posso compreender Deus como sendo uma Trindade, que está comprometido com uma missão e que reivindica para si toda a criação para tomar parte do seu Reino. Por ser uma teologia reformada, ela se faz por meio do diálogo e aberta a estar sempre se reformando. Fora disso, a vida é sem graça.
Pertenço a uma igreja batista porque é a única denominação cristã que tem em seus princípios a defesa da liberdade de expressão e da tolerância religiosa. Pelo menos em seus princípios. A realização prática é outra história. Foi na igreja batista que aprendi com meus antigos pastores o respeito à diversidade religiosa e de culto, a separação completa entre igreja e Estado, a prática da democracia e a defesa do direito de livre expressão.
Sei que essa forma de ser parece estar na contramão do que a maioria tem colocado em prática. Entretanto, procuro construir uma espiritualidade à luz dessa compreensão, que esteja voltada para o humano a partir dos mais vulneráveis, que respeite as diferenças e que valorize a liberdade. É a partir do lugar em que sou construído como evangélico que posso dialogar com outras expressões e contribuir de algum modo para o debate sobre as necessidades humanas. Nesse sentido, sou evangélico crítico e comprometido com as demandas do evangelho de Jesus.

domingo, 2 de abril de 2017

Sinais de esperança para um mundo sem esperança / Signs of hope for a world without hope / Signos de esperanza para un mundo sin esperanza

Então os judeus lhe perguntaram: ‘Que sinal miraculoso o senhor pode mostrar-nos como prova da sua autoridade para fazer tudo isso?’” (João 2.18). 
O evangelho de João usa a palavra grega semeion para se referir aos milagres realizados por Jesus. Normalmente, essa palavra é traduzida como sinal, mas pode também significar um signo ou um símbolo. Como sinal, corresponde a uma ocorrência dentro do fluxo natural das coisas, algo que foge à normalidade para fazer com que as coisas voltem a seguir seu curso em direção a um determinado propósito. Como signo, é uma marca, um registro ou mesmo uma expressão que faz com que uma coisa ganhe repercussão, que possa se distinguir de outras coisas. E como símbolo, é uma representação ou mesmo uma demonstração de algo que é real, mas que não pode ser percebido e sua totalidade.
Para os gregos antigos, semeion poderia ser uma marca que fazia com que algo se tornasse conhecido. Poderia ser também uma comunicação divina, como um presságio. E ainda poderia ser relativo a gestos e indicadores para uma determinada ação, tal como o começo de uma corrida ou orientações para a batalha.
No evangelho de João, no entanto, o uso dessa palavra se destina a responder duas grandes perguntas feitas por quem quer conhecer Jesus. A primeira é: o que Jesus fez para que ele se tornasse tão importante? A segunda é: por que Jesus realizou esses sinais?
Em todo o evangelho são relatados apenas sete desses sinais. São eles:
1. A transformação da água em vinho, em Caná, João 2.1-10. (2)
2. A cura do filho do funcionário do rei, João 4.46-54.
3. A cura do enfermo (paralítico) em Betesda, João 5.1-9.
4. A multiplicação de pães e peixes, João 6.1-13.
5. Jesus caminhando sobre o mar da Galileia, João 6.16-21.
6. A cura do cego de nascença, João 9.
7. A ressurreição de Lázaro, João 11, 1-46.
João reconheceu que Jesus havia realizado muitas outras maravilhas e milagres, mas os que foram relatados em seu evangelho seriam suficientes para que as pessoas compreendessem quem era Jesus, sua missão e mensagem. Ele registrou: Jesus realizou na presença dos seus discípulos muitos outros sinais miraculosos, que não estão registrados neste livro. Mas estes foram escritos para que vocês creiam que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e, crendo, tenham vida em seu nome” (João 20.30-31). E disse mais: “Jesus fez também muitas outras coisas. Se cada uma delas fosse escrita, penso que nem mesmo no mundo inteiro haveria espaço suficiente para os livros que seriam escritos” (João 21.25).
O uso da expressão semeion por João revela uma preocupação teológica, visto que um determinado sinal só pode ser entendido à luz de um sistema de significações. Ferdinand de Saussure, por exemplo, ao referir-se ao signo linguístico, afirma que um semeion está relacionado a um significante e a um significado. Ou seja, possui uma representação, uma forma material, que remete a uma compreensão, a uma ideia. Tem a função de comunicar algo, constituindo-se numa realidade discursiva que precisa ser interpretada e compreendida.
Esses sinais não acontecem aleatoriamente, de forma desordenada, ao sabor das contingências da vida. Antes, eles se inserem numa dinâmica maior, que culmina no sinal mais expressivo, que é o relato da crucificação e ressurreição de Jesus. Quando Jesus apareceu ressurreto aos seus discípulos mostrou-lhes os sinais em seu próprio corpo: Tendo dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se quando viram o Senhor” (João 20.20).
Por essa razão, o evangelho de João pode ser dividido em duas partes: o que podemos chamar de livro dos sinais, onde estão relatados os milagres realizados por Jesus, acompanhados dos ensinamentos que estão vinculados a eles; e o que podemos chamar de livro da paixão, com os relatos da crucificação e ressurreição de Jesus.
Para João, se alguém quer conhecer Jesus, deve observar a maneira como ele sinalizou sua graça entre os homens e a maneira como ele consumou sua missão no mundo, assumindo todos os riscos até o fim. Jesus encarnou a missão de tal modo que é na imagem do crucificado e do ressuscitado que podemos ter acesso à graça divina, na qual toda a trindade está implicada.
O fato de Jesus ter realizado sinais não significava que ele seria aceito com facilidade nem que seu ensino seria melhor compreendido. Jesus sempre esteve aberto à crítica, à avaliação e até à rejeição. Seus ensinos e milagres apontam para a graça, mas crer ou não em Jesus, acolher ou não a Jesus são atitudes que dependem de cada pessoa em sua liberdade de escolha.
As pessoas não crerão em Jesus por causa de um milagre, mas certamente serão notificadas de que a graça de Deus se manifestou de alguma forma na vida. Jesus sinaliza ainda hoje sua presença entre nós por meio dos atos de misericórdia e compaixão daqueles que já o acolheram. Jesus chama seus seguidores para que sejam sinais de sua presença no mundo, a fim de que as pessoas saibam que há esperança para o fim das aflições, das injustiças e de todas as dores que angustiam a humanidade.

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